
Extraído do livro “No Leito da Enfermidade”, de Eleny Vassão[i]
“Jesus ia passando por todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando as boas-novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças. Ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9.35-36 – NVI)
Nosso coração explode em amor ao conhecer intimamente a pessoa de Jesus, percebendo, em cada um de seus atos, o amor pelos pecadores que ainda estão perdidos, afastados daquele os ama, daquele a quem a sociedade rejeitou.
Ele podia ver em cada pessoa – fosse ela uma prostituta, um drogado, uma adúltera ou um ladrão – uma pessoa que, por causa da sua misericórdia e graça, feita nova pelo seu amor, seria um discípulo em potencial. Seus olhos viam a criatura transformada, limpa, perdoada. Um ser digno feito amorosamente pelas mãos do Pai. Caído, mas potencialmente regenerado por seu próprio sangue. Oportunidade oferecida para todos os que nele cressem.
Jesus era chamado de “amigo de pecadores” porque ele veio para salvar todos os doentes, todos nós, que estávamos afastados de Deus, agonizando em dores de separação. Ele veio curar, veio dar vida.
Percebemos em sua vida um grande contraste com a vida dos religiosos de sua época:
1 – Os escribas e fariseus, “pilares do judaísmo”, estavam mais preocupados em “preservar a sua própria santidade” que em ajudar os outros a sair de seus pecados. Eram como médicos que se recusam a visitar os enfermos por medo de contágio.
Por mais que falemos que amamos a Deus, cantemos hinos para Ele, leiamos a sua Palavra com uma voz empostada e reverente, estejamos todos reunidos aos domingos, tenhamos 1000 atividades na igreja, se estas palavras não se convertem em atos de amor a Deus e aos homens, levando-nos a sair de nossos “guetos” evangélicos e indo ao encontro dos pecadores, estaremos agindo como aqueles religiosos judeus, achando-nos “santos demais” para nos contaminar com os pecadores perdidos.
2 – Eles também se preocupavam mais em criticar do que em estimular os outros. Eram os famosos “fiscais” da vida alheia.
3 – Eram como médicos que se apressam em reconhecer os sintomas e em fazer o diagnóstico de seu paciente, mas sem o mínimo interesse em curá-lo. Causavam desespero, amargura, dor.
4 – Davam ênfase às leis e obras externas.
5 – Estavam sempre dispostos a grandes sacrifícios religiosos, mas não à misericórdia. Faziam sempre jejuns, oferendas, mas não estavam preocupados em viver o amor de Deus, porque não o possuíam. Possuíam o templo de Deus, a Palavra de Deus, a lei de Deus, mas Deus não os possuía. Portanto, não possuíam a Deus. Só rituais. Formalismo. Religiosidade.
6 – Ditavam cargas pesadas aos outros, em forma de leis e suas interpretações.
7 – Viam as multidões (o povo) com dureza: como palha que deveria ser queimada.
Jesus Andou Entre o Povo
Nesse contexto religioso dos escribas e fariseus, Jesus inicia seu ministério. Mas que decepção para os religiosos! Esse nunca poderia ser o Messias prometido porque, além de pobre, nascido numa manjedoura, ele agora andava com os pecadores, fazia amizade e até mesmo comia com eles! Era chamado de amigo de pecadores! Ele andava no meio do povo, ia até as ovelhas aflitas e perdidas. “E percorria Jesus todas as cidades e povoados...”
Jesus recebeu a meretriz, acolheu os malcheirosos, venceu o preconceito contra a mulher, os preconceitos políticos e andou entre os membros de quais quer partidos da época; ouviu, tocou, abraçou e curou os enfermos físicos e espirituais. Ele amou as pessoas, até mesmo as “menos amáveis”, aquelas a quem a sociedade rejeitava e desprezava. Aonde quer que Ele fosse, havia transformação de vida.
Ele não precisava viver isolado dentro de um templo ou fazer determinadas coisas para que fosse considerado “espiritual”. Sua vida diária era manifestação visível do amor de Deus. Ele não só falou sobre o Reino de Deus. Era um arauto, porque proclamava a mensagem do Reino de Deus; mas era também um mestre, porque ensinava a mensagem do Reino, vivendo-a no dia-a-dia.
Jesus era também o médico perfeito. Suas preocupações traduziam-se em atos de amor, curando não só os corpos, mas salvando vidas. Em Jesus nós vemos o amor de Deus. Ele se fez homem para viver entre os homens, sentir suas necessidades, suas dores, suas fraquezas para curar-nos integralmente por seu sangue, o remédio de Deus para o pecado do homem, e tornar-nos seus agentes, por intermédio dos quais continua a proclamar seu reino hoje.
Jesus teve Compaixão
Quando falamos em compaixão, confundimos este sentimento com “ter dó”, “ter pena de alguém”. Passamos pelas ruas e ao vermos crianças desamparadas e sujas, mendigando entre os carros, jovens se drogando, outros se prostituindo, famílias nuas, morrendo de frio e fome, nossos rostos se contraem. Olhamos para eles “com dó”, abanamos a cabeça e dizemos: “coitadinhos, quanto sofrimento! Que mundo terrível! Alguém deveria fazer alguma coisa por eles!...”
E continuamos o nosso caminho.
Jesus não teve “dó” do homem, mas sim, compaixão. Esta é a palavra mais forte que o grego tem para expressar a piedade por outro ser humano. Vem de uma palavra que significa entranhas; é uma compaixão entranhável, que comove até o mais profundo do ser. A compaixão leva à ação; o “ter dó” leva à contemplação e à crítica.
Jesus amava as pessoas integralmente e não somente suas almas. Ele se compadecia ao ver o sofrimento, a dor, a enfermidade, a deformação física. E, com amor, Ele curava. Não curava só almas, perdoando-lhes os pecados, mas curava seus corpos, porque queria vê-los sãos, glorificando ao Pai.
A enfermidade torna-nos humildes e sensíveis, desestabiliza o homem mais forte e valente, deixando fraco, temeroso e dependente como uma criança de colo. Ela nos intima a nos lembrar da morte como um fato real e próximo. Ela nos leva a pensar seriamente em Deus e em nosso futuro diante dEle. Amolece nossos corações, levando-nos a buscar uma comunhão mais profunda e íntima com o Senhor.
A doença nunca está muito distante de nós. Sempre encontramos um amigo, parente ou vizinho sofrendo de alguma enfermidade. Ele está sensível, deprimido e ansioso por receber visitas de amigos que realmente confortem seu coração, transmitindo-lhe ânimo e força para lutar e vencer o sofrimento. É necessário lembrarmos a importância que Jesus deu à visitação de enfermos quando disse: “... estava enfermo e me visitastes” (Mt 25.36).
O fruto do amor a Jesus aparecerá em nossa vida quando deixarmos de falar em amor e passarmos a agir com amor, revelando o Deus de amor por meio de pequenos atos em favor daqueles que precisam de nós.
[i] AITKEN, Eleny Vassão de Paula. No Leito de Enfermidade. 6ª Ed. – São Paulo: Ed. Cultura Cristã, 2009. Páginas 42 a 46